Olhou a gaveta por um tempo. E a memória lhe veio como navalha, naquela noite fria e de pouca luz.
Havia prometido a si mesma, não destrancar o que nunca esquecera. Mas era só curiosidade! Ela saberia ser forte. Sabia mais…
Tossiu ao soprar o pó. E sentiu uma fincada no peito. Algo além da poeira a comovia e incomodava. Em um lapso tão curto como a linha entre o real e o abstrato.
Uma lágrima caiu em cima da capa do disco, e outra, outra… aos poucos a poeira ia dando lugar à imagem de Charley Patton. Intacta. E se não fosse pela poeira ninguém diria que estava guardado a 50 anos.
Adentrou a sala devagar, olhou a vitrola meio sem jeito e nenhuma certeza. Trajava branco, e trazia o disco nos braços junto ao peito. De tão velho se esmiuçava aos poucos… e ainda tocava. Com a força de quem tem coragem. Era a mais feliz e suave melodia sobre liberdade. Muito sabia de sofrer, a portadora do velho disco de música gringa.
Por 50 anos ela esperara ele abrir a porta. Como aquele dia em Junho de 1957.
Ele estava tão bonito, mais do que estivera em todos aqueles 20 dias em que se conheciam. Trazia consigo o inverno, uma aliança, o disco preferido e o melhor vinho.
Então a abraçou bem forte, e a rodou. Então o vestido branco se espalhou pela sala, seguindo os pés descalços. Quando a colocou de novo no chão, ele sorria e a olhava como se fosse a última vez. Cheirou seu cabelo, colocou uma das mãos no seu rosto e a fitava como se fosse inevitável. Os olhos dele nunca estiveram tão azuis. Então a beijou, com toda língua e toda alma, respirava ofegante, e ainda a abraçava como nunca havia ousado.
Então eles dançaram, beberam, se amaram, e amaram… Como ninguém jamais pensaria amar em todo mundo.
Um estrondo na porta interrompeu a lembrança. Sempre rangia… Às vezes a acordava de madrugada. Então levantava sobressaltada e logo se dava conta da neurastenia disgnosticada.
Ouviu as músicas sem chorar. Enquanto toda trajetória do disco lhe vinha a mente. Talvez quisesse esquecer e chorar. Ou simplesmente acreditar em todos aqueles psiquiatras e psicólogos insistentes em afirmar que ele nunca existiu. Que tudo sempre fora produto de sua imaginação doentia, e que o disco ela mesma havia comprado.
Então fez o que lhe era cabível. Fechou a gaveta. E desejou se alegrar em ter cada vez menos lucidez e mais tarja-pretas.