Novos Tempos Maudernos

- Rafaeeeeela. Cadê meu chá de boldo transgênico?

- Ainda não tá pronto? Que que você estava fazendo? Ônibus? Como assim ônibus? Quem mais anda de ônibus?

- Ai, faz assim. Chama o Edu.

- Não tá? Ônibus também? Trânsito aéreo? Com meu helicóptero?

- Fazer o quê né?

- Que foi Renatinho, meu querido? Não, de jeito nenhum. Duas horas para comprar pão é muito. Em uma hora e meia quero você em casa. Você sabe como anda a violência aqui no condomínio.

- Tá, leva celular.

- Alô! Sim, eu gostaria de falar com o Roger. Ah, não tá.

- Ele volta?

- Só se pagarem o resgate?

- Faz quanto tempo?

- Sei. Sei. Ah, então daqui uns quinze dias ele deve estar de volta?

- Não sabe?

- Ah, e o Felipe?

- Preso?

- Por andar com a coleção primavera-verão no outono?

- Entendo, muito justo. Mas quem você recomenda?

- Eu não posso ficar nem mais dois dias sem fazer cabelo e mão. Quanto mais quinze.

- Cláudio? Tem pós? Não? É daqueles prodígios? Pfff, esquece.

- Bem, faz assim. Só quero uma hidratação com água mineral nos cabelos. Às quinze horas? Tá bem. Obrigada.

- Alô? Maria Eduarda, Paola Régia, tudo bom? Tudo amor.

- Nada de mais. Só para dizer que estou cercada de incompetentes. Sim, eu sei que você me entende. Por isso liguei para você, né amiga.

- Hoje? Ah, sim estou sabendo. Não sei se vou. Ainda não chegou meu vestido. Não sei. Era para ter chegado ontem.

- É, deve, tudo está preso no trânsito. Só falta o vestido vir de ônibus. Ônibus? É aquele automóvel grande, quadradão, que vai cheio de pessoas. Isso, querida, esse mesmo.

- Tá. Qualquer coisa liga no meu celular. Não, seu número está no meu décimo quarto aparelho. Lógico que não adianta ligar em outro. Não atendo número desconhecido. Outra ligação no aparelho sete amor. Pode deixar que ligo sim. Beijo, tchau.

- Alô. Renatinho, o que você não está fazendo em casa. Já saiu faz duas horas. Sim, eu sei o caminho, duas esquinas até a padaria. Uma hora e meia é o tempo padrão fora da hora do rush. Aqui em casa em dez minutos ou só vai fazer duas viagens para a Europa esse ano.

- Rafeeeeeela. E meu chá?

- Finalmente. Que que foi Rafaela? Porque que você está chorando? Na minha frente não, por favor. Que humilhante.

Publicado em:  on 11 Outubro, 2006 at 5:51 pm Comentários (3)

Segundo Palco

O ambiente era bem mais escuro que os bares normais. O som, bem mais denso. A bebida, bem mais forte. Apesar da descrição soturna a atmosfera era de uma calma inspiradora. Todas aquelas mesas de mogno antigo, pesadas e num tom além do café, quase negro. As paredes propositalmente mal-acabadas e sem lixar, eram os encostos ideais a serem aproveitados com muita calma, se recostando centímetro a centímetro, caso contrário você levaria uma farpa de presente para casa. O assoalho só tinha sinteco na região da lamparina, onde ficavam baixo, piano, uma bateria de sete peças e um clarinete.

O som que aquele grupo tocava não era jazz, não era blues, não era rock. Um som regional, world music, definitivamente seria muito vago para definir as melodias que me encantaram naquele momento. Mas talvez eu não tenha achado a melhor definição daquele cancioneiro pós-moderno porque algo, me chamava ainda mais atenção.

Dois minutos antes uma garota, cabelos ondulados na altura das costas, uma camisa branca semi-transparente, revelando só o necessário, e um rosto exótico na medida certa, me pediu o isqueiro. Sacudi a caixa de fósforo, indicando que isqueiros usavam fluido e que quando perdidos na rua, acabavam inalados por animais indefesos ou em bueiros, direcionando imediatamente seu poder de fogo destrutivo para as caixas d’água da cidade. Mesmo com dúvidas se ela tinha compreendido todo o significado da sacudidela, ela aceitou a caixinha e acendeu seu cigarro com uma delicadeza descomunal. Não lembro até hoje, de um filme sequer, e garanto a vocês, vi muitos e minha memória é excelente, em que um cigarro foi acendido com tamanha elegância e charme.

Acompanhando a bela moça estava um rapaz. Quase mais bonito que ela, ele era negro, de olhos bem profundos e cabelos na altura dos ombros, devidamente trançados. Seu terno formava um belo composé, com sua calça ocre, mas só seu sorriso seria o suficiente para fazer qualquer garota no raio de um par de quilômetros se apaixonar. Esse casal conseguiu atrair mais minha atenção do que o som.

Ainda hoje não sei se fiz uma bela troca, afinal não é sempre que temos o prazer de ver um grupo paraguaio tocando uma música indecifrável, sem negar e sem aceitar as raízes guaranis, sem aceitar as influências máximas da música contemporânea, mas fazendo do todo algo próximo delas, todavia diferente ao ponto de você não conseguir classificar se é melhor ou pior, ou mesmo o que é; só sei que troquei tudo isso pela exercício da observação do casal.

Falando assim parece que fiquei como louco, seguindo o amasio com binóculos, lunetas e cachimbo na boca, mas já adianto que não. Na verdade, acredito que foi um sublime momento de sorte. Todo o embróglio se deu em menos de cinco minutos. A garota estendeu seu braço e sua mão e pegou o isqueiro, acendeu o cigarro com a já citada pompa, mas sem ser esnobe, devolveu o isqueiro e abraçou o rapaz com um dos braços. Eles trocaram alguns poucos, mas belos beijos, e ficaram prestando demasiada atenção aos acordes robustos que saiam do piano e do baixo. As luzes estavam todas direcionadas para o que seria o palco, mas não para mim. No meu imaginário, eu me escondia como um roadie que vai trocar o instrumento do músico e não pode ser visto pela legião de fãs, que pagou uma fortuna para ver o show da banda favorita e não um sortudo que trabalha com eles sabe-se lá porque. Definitivamente eu estava ao lado do melhor palco da noite.

A luz que refletia deles era realmente forte. O mesmo momento de piscar os olhos, o mesmo tipo de pele sedosa e o mesmo jeito de tragar o cigarro. Tudo em harmonia, ele na mais perfeita versão carregada de melanina, que nem a exposição ao sol mais forte o faria fraquejar, e ela da mais alva pele, com os contornos mais suaves, que até a neve teria vergonha de achar-se branca. De repente o auge da noite aconteceu, o solo dos dois amantes. O rapaz, em um movimento sutil se levantou e gentilmente disse que iria pegar uma bebida. Ela olhou para ele e respondeu que já não via a hora dele voltar. E com todo direito de tréplica que um debate oferece, ele respondeu com um sorriso que a fez apoiar o queixo nas costas de uma das mãos, enquanto repousava o cotovelo à mesa.

Não sei, e mesmo uma mulher não seria louca de interromper aquele momento,em que o nosso galã virou de costas, direção ao balcão, e o olhar da garota ficou vago, acompanhando cada passada como se a cada uma delas ele ficasse um continente mais longe. Impossível saber o que se passava naquela cabeça naquele momento, mas uma coisa já eu já conseguia dizer. Ela estava completamente apaixonada. E aposto que eles tinham se conhecido há apenas três dias.

Publicado em:  on 16 Setembro, 2006 at 6:20 pm Comentários (5)