A chama.

Maldita insônia!
Relembrei meu dia ruim. meu ano ruim. minha vida e minha morte… ruins!
meu batom vermelho está no último suspiro… e nada!

Enquanto ranço a cadeira de rodas… escuto o barulho de um isqueiro. “cráss”. A varanda de repente iluminou-se, pela chama de um cigaro…

Era ele… o homem que restaura diariamente minha alma e minha vida…
Jeremy. Ah.. doce e sutil cavalheiro… Se ao menos me visse. Faria com que seu ano de 1937 durasse para sempre.

Ele ouve jazz…
E me deixa louca com o prazer que dedica ao cigarro… Solta a fumaça como quem solta vida. E a traga de volta.

Se ele ficasse alí..  para sempre.
Só ficasse.
Por um tempo esqueceria que o cigarro acende tua solidão.
E essa solidão, eu sei de cor… assim como sei do prazer. Da chama, da eternidade, da loucura e do cigarro.

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Se ele soubesse… do gozo que me dá. Quando solta essa fumaça. Se me visse e soubesse, que do mesmo vício compartilhamos. Se soubesse o que eu sei…
Se acendesse garbosamente meu cigarro… e soubesse o que eu sei….
Seria perfeito!

Talvez não demore muito… foi assim comigo.  Antes de esfriar, e da insônia chegar.
Meus pés. Tão gelados; mesmo dentro deste salto. Ainda frios… meu corpo frio. Não tem medo do escuro.
Não mais. O coração queima. No mesmo ritmo do cigarro.
Ah… se ele soubesse o quanto!

O medo queimou. Junto com a certeza.
Daqui posso ouvir o Jazz, que ele ouve. Enquanto espixo o pescoço para trás.

Queimaremos eternamente, doce Jeremy.
Sinto frio… e morro! Junto com resto do cigarro, que jogaste descontente no cinzeiro.
já não tem fogo, nem luz, nem libido. Tampouco… Jazz.

Só vivo para o vício!
Ah. Voluptuoso e avassaldor…

Me apague.
Amanhã eu sei que me dará a vida… Junto com a chama. E a morte… junto com o fim do cigarro.

E eu… sei mais que tu, Jeremy.!
sei o gosto que a morte tem.
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Publicado em: on 19 Dezembro, 2006 at 6:14 am Comentários (1)

A caixa de música

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Donella acarinhava a aveludada tampa vermelha da mais bela caixinha de música. Aqueles dedos tão temerosos tinham as unhas roídas e a pele suave. A caixa, vermelha com detalhes dourados, embora velha e por muito esquecida, permanecia intacta, era mais do que uma caixa de fazer música… era a caixa dona do tempo, dos sentidos, da sensibilidade e do pecado.
Depois de um demorado entrosamento, a dama deu corda à caixinha. Enquanto uma lágrima seca escorria-lhe o rosto, sorrateiramente, rasgando-a.
Devagar, com os dedos finos abriu a caixinha de músicas… libertando aquela bela e simples melodia. Que logo tomou conta do quarto empoeirado.

Parecia estar além da realidade, adentrava Donella por todos os poros, fazendo com que perdesse os sentidos. Então fechou os olhos e deixou-se levar pelo hedonismo avassalador que a tomava.
Inclinou a cabeça para trás, suscetível ao embriago da música. Sentia os cabelos curtos rasparem-lhe a nuca, arrepiando os pêlos do braço e estremecendo-lhe as pernas.
Respirou fundo e lentamente… sentiu o ar entrando e saindo dos pulmões. A vida, indo e vindo.
A expressão à flor da pele, nunca fora dantes tão bem empregada.

Donella sabia estar com todos sentidos a aguçar-lhe inebriantemente.
Levantou a cabeça, voltando a sentir os cabelos na nuca, deu dois passos até a penteadeira, enquanto a caixinha em cima da cama, agora sozinha. Ainda emanava sua música, sem pressa.

Abriu a gaveta.
Pegou o castiçal, as velas e uma caixa de fósforos, que guardara para as noites de insônia regadas a cigarro barato.
Acendeu todas as três velas do castiçal. E colocou-o num canto do chão.
Então sentiu o corpo arder, feito fogo. Como se ele contemplasse toda a sensibilidade que fora designada a púbere Donella, naquela madrugada blasfeme.

De súbito, Donella olhou para o espelho, e viu-se.
Foi amor a primeira vista.
Viu-se tão bela, tão completa, tão frágil e tão intensa… Que era impossível opor-se a tamanha graça.
Então nada mais fazia sentido. Nem mesmo Narciso às margens da lagoa.

As mãos pequenas de Donella subiam lentamente, peregrinando a distância entre as coxas e a face. Colocou a mão no rosto, sentiu-se, notou-se, apreciou-se. Olhava-se fixamente pelo espelho. Agora eram só elas… Donella, e a caixa de música.

Olhou-se fixamente, e colocou um dedo na boca. Fechou os olhos, e deixou-se levar pela música.
Roer a unha nunca fora tão prazeroso.
Donella estava avassaladoramente apaixonada. E nada mais a importava.

Acarinhou-se a nuca, a cintura, as pernas. Sentou na penteadeira, como quem senta no colo da amada. Direcionou o olhar às pernas inebriantes e brancas, logo voltou-se a olhar para si no espelho… não saberia mais viver sem ver-se, contemplar-se, amar-se….

E apaixonada, apreciou-se, e inevitalmente se aproximou do espelho, e beijou-se a boca. Com toda luxúria, devassidão e lascívia que haviam dentro de si.
Ao som da magnífica música que a caixinha ainda emanava.

Donella saberia ser eterna, e ainda queimavam-se as entranhas feito fogo.
Sentia tudo agora. À flor da pele.
Passava apaixonadamente a língua sobre a superfície gélida e amarga do espelho, com toda volúpia e intensidade que lhe foram concedidas.

Despiu-se.
apagou as velas. e deu mais corda à caixa de música…

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Publicado em: on 20 Novembro, 2006 at 12:59 am Comentários (4)

O Disco

Olhou a gaveta por um tempo. E a memória lhe veio como navalha, naquela noite fria e de pouca luz.
Havia prometido a si mesma, não destrancar o que nunca esquecera. Mas era só curiosidade! Ela saberia ser forte. Sabia mais…

Tossiu ao soprar o pó. E sentiu uma fincada no peito. Algo além da poeira a comovia e incomodava. Em um lapso tão curto como a linha entre o real e o abstrato.
Uma lágrima caiu em cima da capa do disco, e outra, outra… aos poucos a  poeira ia dando lugar à imagem de Charley Patton. Intacta. E se não fosse pela poeira ninguém diria que estava guardado a 50 anos.

Adentrou a sala devagar, olhou a vitrola meio sem jeito e nenhuma certeza. Trajava branco, e trazia o disco nos braços junto ao peito. De tão velho se esmiuçava aos poucos… e ainda tocava. Com a força de quem tem coragem. Era a mais feliz e suave melodia sobre liberdade. Muito sabia de sofrer, a portadora do velho disco de música gringa.

Por 50 anos ela esperara ele abrir a porta. Como aquele dia em Junho de 1957.
Ele estava tão bonito, mais do que estivera em todos aqueles 20 dias em que se conheciam. Trazia consigo o inverno, uma aliança, o disco preferido e o melhor vinho.
Então a abraçou bem forte, e a rodou. Então o vestido branco se espalhou pela sala, seguindo os pés descalços. Quando a colocou de novo no chão, ele sorria e a olhava como se fosse a última vez. Cheirou seu cabelo, colocou uma das mãos no seu rosto e a fitava como se fosse inevitável. Os olhos dele nunca estiveram tão azuis. Então a beijou, com toda língua e toda alma, respirava ofegante, e ainda a abraçava como nunca havia ousado.
Então eles dançaram, beberam, se amaram, e amaram… Como ninguém jamais pensaria amar em todo mundo.

Um estrondo na porta interrompeu a lembrança. Sempre rangia… Às vezes a acordava de madrugada. Então levantava sobressaltada e logo se dava conta da neurastenia disgnosticada.

Ouviu as músicas sem chorar. Enquanto toda trajetória do disco lhe vinha a mente. Talvez quisesse esquecer e chorar. Ou simplesmente acreditar em todos aqueles psiquiatras e psicólogos insistentes em afirmar que ele nunca existiu. Que tudo sempre fora produto de sua imaginação doentia, e que o disco ela mesma havia comprado.

Então fez o que lhe era cabível. Fechou a gaveta. E desejou se alegrar em ter cada vez menos lucidez e mais tarja-pretas.

Publicado em: on 10 Setembro, 2006 at 9:50 am Comentários (6)