Donella acarinhava a aveludada tampa vermelha da mais bela caixinha de música. Aqueles dedos tão temerosos tinham as unhas roídas e a pele suave. A caixa, vermelha com detalhes dourados, embora velha e por muito esquecida, permanecia intacta, era mais do que uma caixa de fazer música… era a caixa dona do tempo, dos sentidos, da sensibilidade e do pecado.
Depois de um demorado entrosamento, a dama deu corda à caixinha. Enquanto uma lágrima seca escorria-lhe o rosto, sorrateiramente, rasgando-a.
Devagar, com os dedos finos abriu a caixinha de músicas… libertando aquela bela e simples melodia. Que logo tomou conta do quarto empoeirado.
Parecia estar além da realidade, adentrava Donella por todos os poros, fazendo com que perdesse os sentidos. Então fechou os olhos e deixou-se levar pelo hedonismo avassalador que a tomava.
Inclinou a cabeça para trás, suscetível ao embriago da música. Sentia os cabelos curtos rasparem-lhe a nuca, arrepiando os pêlos do braço e estremecendo-lhe as pernas.
Respirou fundo e lentamente… sentiu o ar entrando e saindo dos pulmões. A vida, indo e vindo.
A expressão à flor da pele, nunca fora dantes tão bem empregada.
Donella sabia estar com todos sentidos a aguçar-lhe inebriantemente.
Levantou a cabeça, voltando a sentir os cabelos na nuca, deu dois passos até a penteadeira, enquanto a caixinha em cima da cama, agora sozinha. Ainda emanava sua música, sem pressa.
Abriu a gaveta.
Pegou o castiçal, as velas e uma caixa de fósforos, que guardara para as noites de insônia regadas a cigarro barato.
Acendeu todas as três velas do castiçal. E colocou-o num canto do chão.
Então sentiu o corpo arder, feito fogo. Como se ele contemplasse toda a sensibilidade que fora designada a púbere Donella, naquela madrugada blasfeme.
De súbito, Donella olhou para o espelho, e viu-se.
Foi amor a primeira vista.
Viu-se tão bela, tão completa, tão frágil e tão intensa… Que era impossível opor-se a tamanha graça.
Então nada mais fazia sentido. Nem mesmo Narciso às margens da lagoa.
As mãos pequenas de Donella subiam lentamente, peregrinando a distância entre as coxas e a face. Colocou a mão no rosto, sentiu-se, notou-se, apreciou-se. Olhava-se fixamente pelo espelho. Agora eram só elas… Donella, e a caixa de música.
Olhou-se fixamente, e colocou um dedo na boca. Fechou os olhos, e deixou-se levar pela música.
Roer a unha nunca fora tão prazeroso.
Donella estava avassaladoramente apaixonada. E nada mais a importava.
Acarinhou-se a nuca, a cintura, as pernas. Sentou na penteadeira, como quem senta no colo da amada. Direcionou o olhar às pernas inebriantes e brancas, logo voltou-se a olhar para si no espelho… não saberia mais viver sem ver-se, contemplar-se, amar-se….
E apaixonada, apreciou-se, e inevitalmente se aproximou do espelho, e beijou-se a boca. Com toda luxúria, devassidão e lascívia que haviam dentro de si.
Ao som da magnífica música que a caixinha ainda emanava.
Donella saberia ser eterna, e ainda queimavam-se as entranhas feito fogo.
Sentia tudo agora. À flor da pele.
Passava apaixonadamente a língua sobre a superfície gélida e amarga do espelho, com toda volúpia e intensidade que lhe foram concedidas.
Despiu-se.
apagou as velas. e deu mais corda à caixa de música…
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Tio Lollo… te dedico.
A clareza, leveza e determinação de suas palavras, me deixam estarrecida! Pelo menos, sempre estou aqui, lendo e relendo! Grande abraço e meus sinceros parabéns!
Claudilene Neves
delícia de conto. delícia de conto MESMO. e obrigado pela dedicatória!!!
Ai…eu sei como é isso…kkk