O som familiar da colher raspando o prato que ouvia agora da cozinha ao lado, lembrou-lhe o pai ao ralhar com ela ao fazer o mesmo som. Seu pai morrera na Segunda Guerra. Depois daquilo, seu mundo mudou completamente; ele se abriu a novas propostas, a viagens, ao conhecimento de tudo aquilo que precisou para suprir sua vida de aventuras. Mas, agora, estava ali, numa casa comum, com um marido comum que tomava canja e arrastava a colher no prato de porcelana, último exemplar restante dos presentes de casamento, oito anos atrás. E assim eles se revezavam no almoço e jantar; cada um comia, lava seu prato, e depois o outro comia. Isto, visivelmente, ajudava a diminuir o trabalho na hora de limpar a cozinha. Mas este assunto afligia Veronika naquele momento. Mentira, pensava, isso estava corroendo-a desde o dia do seu casamento. Agora a certeza clareava tudo: Leon destruiu sua vida, quando a conheceu. Não, ela mesma se destruiu, quando aceitou o pedido de casamento. Era necessário, naquela altura da vida, sair de seu “roteiro rumo ao inferno”, como ela chamava seu cotidiano; acordar com um homem diferente a cada dia, sair à tarde quase sem destino, terminar a noite num bar numa cidade também diferente e adormecer nos braços de um outro estranho para, no outro dia, começar tudo novamente.
Leon apareceu do nada e a tomou da vida; Veronika, com então 25 anos, entregou-se, pois achava que era o momento de mudar o rumo. Entretanto, a direção tomada não foi o que ela esperava. No começo, acostumou-se, entretanto, o costume virou monotonia, e a monotonia acabou resultando na agonia em que se encontrava agora. Veronika queria se matar, mas a vida era por demais cativante para que ela cometesse suicídio. Poderia matar Leon, mas nem ele merecia isso. Merecia coisa pior, por deixá-la minguar. Tinha 32 anos, e apesar de ser muito bela, ele a desprezava; porém, como todas as outras coisas, Veronika se acostumou. Só que o dia da desforra chegara finalmente; lembrou do vizinho, 22 anos e que vivia olhando com olhos esfomeados para Veronika. Aliás, pensou, foram estes olhos que a manteve viva nestes últimos dois anos; e eram estes olhos que saciariam a fome recíproca deles.
Decidida, passou por Leon, que repetia o prato de canja e nem levantou os olhos para ela; caminhou até a casa do vizinho, e o chamou. Perguntou se estava sozinho, e ele, desconfiado, disse que sim. Entrou sem nem falar mais nada e ali na porta mesma, agarrou o rapaz. Ele tentou se livrar, sem muito esforço, do beijo de Veronika, mas, logo cedia às mãos femininas e delicadas, que retiravam as roupas de ambos. E, ali em pé na porta, de costas para o vizinho, deixou ser possuída por ele. Quando terminaram o ato, ela olhou para a porta de sua casa que ainda estava aberta. Leon, era possível escutar, ainda raspava o prato de canja. Ele devia ter ouvido os gemidos dela e do vizinho, mas, ao que parece, ou viu e não ligou, ou nem se levantou da cadeira. Bem, pra Veronika, não importava; foi para casa, pediu o divórcio, saiu naquela noite de casa, e nunca mais foi vista.
“Roteiro rumo ao inferno”
Veronika, Veronica e Verônica tira o ódio do seu pequeno coração criança.
22+25-32
Hum…
sempre disse isso.
o céu deve ser muito chato.