A Dama

Seu rosto foi de encontro à lama. Chovia naquele momento e as gotas que caíam do céu retiravam aos poucos sua bebedeira da noite que, agora, virara dia. É ajudada pelo seu vizinho, aquele que fora o “menino prodígio” da Europa, e agora tornava-se o decadente Mozart. Ele a levanta e diz que são seis e vinte da manhã, e que ela deveria entrar e secar-se, senão poderia pegar uma tuberculose. O sorriso e a sinceridade do músico a fazem levantar-se, percebendo que está quase em casa. O inverno está chegando e já faz frio na aurora do dia, diferente do verão, que despede-se através de seu mensageiro, o outono. Ela sente muito frio e, enquanto entra em casa, percebe que está sem suas roupas de baixo. Outras dores, acentuadas pelo frio, também aparecem em sua genitália; até mesmo a parte de trás dói. Mas ela não lembra de nada. Somente dos momentos atrás, quando seu rosto sentiu o toque gelado da lama.
Enquanto esquenta a água para se lavar, uma imagem perturbadora invade sua mente: ela estava nua, deitada sob uma mesa, de barriga para baixo, enquanto vários homens em pé, riam de sua condição. Naquele momento, Ylyana, este era seu nome, quase caiu. Como uma garota reservada como ela, temente a Deus, poderia estar naquelas condições?, perguntava-se enquanto as lágrimas agora lhe encharcavam a roupa seca. Ylyana também sentiu seu corpo tremer com o estranho prazer que lhe invadiu ao lembrar quando um dos homens enfiou o rosto no seu sexo, por trás, e ela sentiu os lábios e língua dele molhando-a. Tudo isso, misturado ao som de um piano, que só agora aparecia naquela história montada aos poucos por sua cabeça. De repente, ela também consegue ver o pianista; ele está numa parte mais escura da sala, e vendado. Naquele momento, ela é puxada violentamente pelos cabelos para o outro lado, enquanto sua boca era preenchida por um pênis. Dali em diante, Ylyana fechou seus olhos, pois não podia agüentar tamanha crueldade. Entretanto, a mente de Ylyana queria chegar mesmo é ao começo de tudo. Como fora parar ali, naquela sala estranha e maldita, com aqueles homens conspurcados pelo mal? E aquele pianista? E por que a maltratavam tanto?
Nervosa, Ylyana finalmente entra na banheira para se lavar; agora, era ainda mais necessário um banho. Apesar de preferir nem ter lembrado disso tudo (“agora é tarde demais”), ela quer ir ao fundo, onde começou. Porém, sua memória pára no momento em que alguns copos de vinho são enfiados garganta abaixo e ela tem suas roupas retiradas por várias mãos, um pouco antes de ser jogada nua naquela mesa.
No final da tarde, aparece um cavalheiro mascarado a sua porta. Pergunta se o trato ainda está de pé, visto que ontem foi a primeira noite de Ylyana. Ela arregala os olhos, e finalmente lembra de tudo. Aceita o dinheiro, guarda ele, e saí com o homem mascarado. Quem será o músico hoje? O mesmo de ontem?, pergunta Ylyana. Não, responde o mascarado. O pessoal não gostou muito do sr. Mozart.

Publicado em:  on 5 Setembro, 2006 at 2:22 pm Comentários (7)

O URI para Trackback deste artigo é: http://clubedofim.wordpress.com/2006/09/05/a-dama/trackback/

Feed RSS dos comentários deste post

7 Comentários Leave a comment.

  1. Sua cara isso de ficar ido e vindo no tempo.
    Muito bom o conto.
    Só não entendi muito qual era o trato.
    se ela virou puta ou se foi incenação
    beijos.

  2. Ela não virou,
    ela “já era”.

    Obs..:Gostei do nome dela…heim?!

  3. Bem, cada um interpreta como quiser ehehhe.. pra mim, ela já era, ou, estava começando na “carreira” ehheehe…

  4. foi isso que pensei.
    =]

  5. adorei o conto.
    quem imaginaria q a coitada da ylyana tinha virado quenga?
    soh no final p ver neh…
    no inicio parecia um estupro.
    pq a coitada virou quenga?
    “Como uma garota reservada como ela, temente a Deus, poderia estar naquelas condições?”
    ficou faltando… eu acho.

  6. felipe, o conto prova (se é que conto prova alguma coisa) que as pessoas são tementes a Deus sim, mas, são tementes mais ainda à pobreza, fome etc. etc. etc. então, elas se vêem obrigadas a novas tentativas de obter dinheiro. e ela tinha “esquecido”, lembra? ela fora “temente a Deus”… não é mais ehehhehehhe.. ou é, porém, teme mais ainda passar fome… ;-)
    espero ter esclarecido meu ponto de vista…

  7. Rômulo,
    valeu pela resposta.
    esclareceu sim.
    obrigado.


Leave a Comment