Acordei com tanto frio…. procurei pelo relógio na cabeceira, mas não tinha cabeceira. Olhei para os meus pés, e logo me dei conta, que era dele, o gosto na minha boca, e a calça vermelha de moletom que me vestia. Estranhamente, gosta de me por a roupa… lembro-me que sorria e achava graça, enquanto dobrava a barra, e a cintura da calça, dizendo: “tão pequenina a minha moleca”.
O frio, ah.. maldito frio. Isso me faz acreditar que o pólo norte não fica no norte. Aonde será que tem um cobertor? E ele? Aonde foi parar??? A ultima vez antes de fechar os olhos, ele estava com a mão no meu cabelo, a outra acarinhava de leve as minhas costas, eu deitada no peito dele, sentia o ar entrar e sair do pulmão, o coração bater com, e sem pressa. Mas quase não ouvia o que ele dizia, e dizia tanta coisa…
Aonde ele foi? Será que é tarde? ou cedo??? É hoje ainda, ou já é amanhã? Minha cabeça…. Aí! O que era aquilo que eu bebi ontem??? Porque eu pergunto tanto e faz tanto frio??? Merda! Cadê meu sapato???
Odeio ele! Biltre cretino!!! Me deixou sozinha, e com frio. imbecil! vou comer seu fígado no almoço, dar veneno pro seu gato, quebrar seu computador e…. ai, aonde fica o tylenol????
Me pegou no colo, e disse que eu precisava dormir. Tinha bebido de mais, mas não fiquei bêbada, só sonolenta. Ou será que era bêbada? Ele tirou meu allstar vermelho, não sem antes reclamar da sujeira. Tirou minha calça jeans, com tanto charme…. vestiu em mim o moletom e nele a calça xadrez que eu gosto. Escovou meus dentes, e os dele. Eu ri, e ele riu de mim.
Pegou-me no colo, e eu beijei-lhe a boca. Encostei o nariz no nariz dele e ri de novo. Ele também. Antes de me por na cama.
Filhodaputa, viado, lorpa!!! aonde você foi parar??? hum.. que cheiro bom café. Que lindo meu amor… está fazendo cafezinho pra mim.
ainda era ontem
A chama.
Maldita insônia!
Relembrei meu dia ruim. meu ano ruim. minha vida e minha morte… ruins!
meu batom vermelho está no último suspiro… e nada!
Enquanto ranço a cadeira de rodas… escuto o barulho de um isqueiro. “cráss”. A varanda de repente iluminou-se, pela chama de um cigaro…
Era ele… o homem que restaura diariamente minha alma e minha vida…
Jeremy. Ah.. doce e sutil cavalheiro… Se ao menos me visse. Faria com que seu ano de 1937 durasse para sempre.
Ele ouve jazz…
E me deixa louca com o prazer que dedica ao cigarro… Solta a fumaça como quem solta vida. E a traga de volta.
Se ele ficasse alí.. para sempre.
Só ficasse.
Por um tempo esqueceria que o cigarro acende tua solidão.
E essa solidão, eu sei de cor… assim como sei do prazer. Da chama, da eternidade, da loucura e do cigarro.

Se ele soubesse… do gozo que me dá. Quando solta essa fumaça. Se me visse e soubesse, que do mesmo vício compartilhamos. Se soubesse o que eu sei…
Se acendesse garbosamente meu cigarro… e soubesse o que eu sei….
Seria perfeito!
Talvez não demore muito… foi assim comigo. Antes de esfriar, e da insônia chegar.
Meus pés. Tão gelados; mesmo dentro deste salto. Ainda frios… meu corpo frio. Não tem medo do escuro.
Não mais. O coração queima. No mesmo ritmo do cigarro.
Ah… se ele soubesse o quanto!
O medo queimou. Junto com a certeza.
Daqui posso ouvir o Jazz, que ele ouve. Enquanto espixo o pescoço para trás.
Queimaremos eternamente, doce Jeremy.
Sinto frio… e morro! Junto com resto do cigarro, que jogaste descontente no cinzeiro.
já não tem fogo, nem luz, nem libido. Tampouco… Jazz.
Só vivo para o vício!
Ah. Voluptuoso e avassaldor…
Me apague.
Amanhã eu sei que me dará a vida… Junto com a chama. E a morte… junto com o fim do cigarro.
E eu… sei mais que tu, Jeremy.!
sei o gosto que a morte tem.
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Guerrilheiros

Os passos foram crescendo. Crescendo. Repentinamente um homem vira a pequena esquina. Luci estava embaixo duma marquise aguardando a garoa passar. A noite estava péssima para trabalhar. Marcio corre em direção dela, mas Luci sentiu que ele não causaria maiores problemas. Jogou a jaqueta mais no fundo do pequeno beco que seguia a construção, assim como o chapéu, que vôou para o mesmo lugar. “Vai, você tem cinco segundos para chupar meu pau”, disse ele com a certeza de quem falava com uma puta. Ele se encostou na parede, e ela ajudou a tirar seu pênis da calça, colocando-o na boca. Nisso, um outro homem apareceu na esquina, também vinha de uma corrida, e era possível ouvir seu arfar. Olhou para o casal recém-formado e seguiu adiante na sua corrida. Alguns segundos depois, quando não mais se ouvia os passos daquele homem, Marcio disse: “Pode parar agora, era só para disfarçar”. Mas Luci só olhou para ele, sem parar seu trabalho, e com a mão direita espalmada, demonstrou que iria até o final do serviço. “Mas… eu… não tenho dinheiro”, falou enquanto o prazer o dominava. Novamente ela olhou com os olhos indicando que não precisaria pagar. Marcio colocou as mãos no rosto, tapando o prazer com alguma vergonha. Pouco depois, ele chegava ao orgasmo. Luci, após saciar sua sede, olhou para ele e perguntou se estava satisfeito. “Sim”, ele respondeu. “O que aquele homem queria contigo?”. “Olha, é uma longa história. E agora tenho que ir antes que ele volte”. “Não. Fique comigo. Você é um guerrilheiro, não é? Calma, eu sei pois meu irmão também era. Ele morreu dois meses atrás. Viveu um ano se escondendo, na clandestinidade”. “É… sim. Estou fugindo daquele homem. Ele é policial. Acabou de matar minha parceira quando íamos trocar de aparelho. O desgraçado estava nos vigiando. Meu deus!”. Marcio colocou as mãos no rosto e começou a chorar. “Vamos”, disse Luci, “fique na minha casa esta noite. Você não tem para onde ir mesmo, tem?”. “Não, não tenho”. “Então vamos, antes que ele volte”.
Luci levou Marcio pelos braços. Ela morava pouco mais de cinqüenta metros de onde estavam, na mesma rua. Enquanto subiam as escadas até o segundo andar, onde morava, Luci explicou que ela mesma matou seu marido, quando descobriu que seu irmão morrera torturado no quartel onde ele era comandante. Ela soube, inclusive, que seu marido dera a ordem de torturá-lo, só que o carrasco teria se “excedido” na tortura. Foi o que ela soube extra-oficialmente. “Mas… você matou mesmo seu marido?”. “Sim, eu afrouxei o apoio da sacada que ele adorava se encostar na sua pose de ‘nada vai me acontecer’. Quebrou o pescoço na queda, que nem era tão alta, mas sabia que ele ia se fuder. Nunca desconfiaram. Então, pra fuder ainda mais com o babaca, resolvi virar puta, já que ele sempre teve amantes e eu sempre me ferrava dentro de casa. Agora tá ardendo no inferno e com um chifre do tamanho do capeta”. Foi impossível para Marcio segurar o riso, mesmo com toda tensão a que estava sendo submetido, e assim os dois ganharam o pequeno apartamento onde agora vivia Luci. “É, agora vivo neste pequeno apartamento. Tenho ainda minha casa, mas fico aqui durante a semana cumprindo meu ‘expediente’. E acredite, estou adorando! Olhe, ali é o banheiro. Vá lá, tome um banho. Eu espero um pouco, e depois entro, caso você queira”. Marcio estava atordoado, mas balançou a cabeça em tom afirmativo. “Ah, que tal eu descer para pegar seu casaco e chapéu?”. E novamente Marcio apenas afirmou com a cabeça, enquanto entrava no banheiro.
Ao entrar no banheiro, foi até o chuveiro e tentou ligar a água, mas não conseguiu. Tentou achar algum registro principal, mas não obteve sucesso, e então foi até a pia, ao lado da porta, de onde ouviu um diálogo, que vinha pela janela. Reconheceu a voz de Luci, e foi até a janela, com muito cuidado. “Sim, eu sou policial, e nós vamos subir agora, vagabunda. Mora aqui, não é? Eu vi você fazendo um boquete agora pouco. E eu quero um pouco mais que isso, entendeu?”. E as vozes foram sumindo, pois eles provavelmente entravam no corredor da escada. Pela conversa e o tempo decorrido, Marcio imaginou que Luci não tivera tempo de atravessar para pegar seu casaco e chapéu. Então ele entrou novamente no banheiro, apagou a luz, e escondeu-se atrás da porta. Nesse instante o policial e a Luci entravam no quarto. A tensão era grande. E foi então que ele ouviu de Luci que ela iria até o banheiro e volta rapidamente, e que ele a esperasse sem as roupas. Ela entrou com os olhos cerrados, fechou a porta, e começaram uma rápida conversa com o mínimo de volume possível, enquanto ela tirava a roupa: “Seguinte, não temos tempo a perder”, disse Luci. “Eu vou deixá-lo de costas para o banheiro, me comendo de quatro na cama. Tente aguardar até ele chegar perto de gozar. Aí pegue este cano de ferro solto aqui embaixo da pia, e faça o que tem que fazer. Tente derrubá-lo com um golpe só, por favor”. Marcio novamente só fez um gesto afirmativo com a cabeça, mas agora seus olhos refletiam sua raiva. Até mesmo o sentimento de ciúmes por aquela mulher irradiava-lhe o corpo todo.
Luci saiu do quarto, apenas com a lingerie, porém, sem a calcinha. Deixou a porta entreaberta, no ponto preciso para que Marcio não precisasse nem tocar nela. Pouco após dois minutos, já se ouvia os sons do sexo entre o policial e Luci. Marcio arriscou a escuridão do banheiro e a penumbra do quarto para olhar e viu que Luci conseguiu a posição ideal. Seu enorme traseiro branco dominava a cena, e por um instante Marcio sentiu a excitação do momento, que misturava o sexo com a violência que viria a seguir, além da raiva de saber que ele poderia estar ali no lugar daquele homem que minutos atrás matara sua companheira. E então Marcio caminhou, silenciosamente e o mais rápido que pôde até a cama. O policial foi atingido bem na nuca e caiu fora da cama. Marcio ainda acertou três chutes na cabeça dele, para garantir que não acordaria. Agora Marcio assumiu a coisa. Disse que levaria o policial até aquele beco e o mataria lá. Colocaria fogo nele, pra não restar digitais. Enquanto levantava o policial, e Luci pegava uma garrafa de álcool e fósforos, disse a ela: “Tome um banho, que o próximo sou eu”.
A caixa de música
Donella acarinhava a aveludada tampa vermelha da mais bela caixinha de música. Aqueles dedos tão temerosos tinham as unhas roídas e a pele suave. A caixa, vermelha com detalhes dourados, embora velha e por muito esquecida, permanecia intacta, era mais do que uma caixa de fazer música… era a caixa dona do tempo, dos sentidos, da sensibilidade e do pecado.
Depois de um demorado entrosamento, a dama deu corda à caixinha. Enquanto uma lágrima seca escorria-lhe o rosto, sorrateiramente, rasgando-a.
Devagar, com os dedos finos abriu a caixinha de músicas… libertando aquela bela e simples melodia. Que logo tomou conta do quarto empoeirado.
Parecia estar além da realidade, adentrava Donella por todos os poros, fazendo com que perdesse os sentidos. Então fechou os olhos e deixou-se levar pelo hedonismo avassalador que a tomava.
Inclinou a cabeça para trás, suscetível ao embriago da música. Sentia os cabelos curtos rasparem-lhe a nuca, arrepiando os pêlos do braço e estremecendo-lhe as pernas.
Respirou fundo e lentamente… sentiu o ar entrando e saindo dos pulmões. A vida, indo e vindo.
A expressão à flor da pele, nunca fora dantes tão bem empregada.
Donella sabia estar com todos sentidos a aguçar-lhe inebriantemente.
Levantou a cabeça, voltando a sentir os cabelos na nuca, deu dois passos até a penteadeira, enquanto a caixinha em cima da cama, agora sozinha. Ainda emanava sua música, sem pressa.
Abriu a gaveta.
Pegou o castiçal, as velas e uma caixa de fósforos, que guardara para as noites de insônia regadas a cigarro barato.
Acendeu todas as três velas do castiçal. E colocou-o num canto do chão.
Então sentiu o corpo arder, feito fogo. Como se ele contemplasse toda a sensibilidade que fora designada a púbere Donella, naquela madrugada blasfeme.
De súbito, Donella olhou para o espelho, e viu-se.
Foi amor a primeira vista.
Viu-se tão bela, tão completa, tão frágil e tão intensa… Que era impossível opor-se a tamanha graça.
Então nada mais fazia sentido. Nem mesmo Narciso às margens da lagoa.
As mãos pequenas de Donella subiam lentamente, peregrinando a distância entre as coxas e a face. Colocou a mão no rosto, sentiu-se, notou-se, apreciou-se. Olhava-se fixamente pelo espelho. Agora eram só elas… Donella, e a caixa de música.
Olhou-se fixamente, e colocou um dedo na boca. Fechou os olhos, e deixou-se levar pela música.
Roer a unha nunca fora tão prazeroso.
Donella estava avassaladoramente apaixonada. E nada mais a importava.
Acarinhou-se a nuca, a cintura, as pernas. Sentou na penteadeira, como quem senta no colo da amada. Direcionou o olhar às pernas inebriantes e brancas, logo voltou-se a olhar para si no espelho… não saberia mais viver sem ver-se, contemplar-se, amar-se….
E apaixonada, apreciou-se, e inevitalmente se aproximou do espelho, e beijou-se a boca. Com toda luxúria, devassidão e lascívia que haviam dentro de si.
Ao som da magnífica música que a caixinha ainda emanava.
Donella saberia ser eterna, e ainda queimavam-se as entranhas feito fogo.
Sentia tudo agora. À flor da pele.
Passava apaixonadamente a língua sobre a superfície gélida e amarga do espelho, com toda volúpia e intensidade que lhe foram concedidas.
Despiu-se.
apagou as velas. e deu mais corda à caixa de música…
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Adoro sábados!
Os dois apartamentos do meu andar estavam quietos. Já o apartamento exatamente embaixo do meu, no primeiro andar, uma garota nua cedia a todos os desejos do seu amante. Era incrível. Naquele sábado, às 22h15 cinco apartamentos esbanjavam excitação, e eu era testemunha de todos eles; dois no primeiro andar, e três no andar superior ao meu. O último andar, quarto, tudo calmo. A moça do primeiro andar, aquela que falei primeiro, agora cumpria uma exigência um tanto estranha de seu parceiro: ela, sentada de costas pra ele, sufocava-o pressionando a vagina no seu pescoço, enquanto ela tinha toda a visão da enorme bunda dela. Ele queria gozar assim, sem nem ela colocar a mão no pau dele; e foi assim que o jato branco saiu, lambuzando os peitos e barriga da garota.
No outro apartamento, dois amigos pagavam uma puta por pura diversão. Nem chegaram a transar com a guria. Faziam-na tirar a roupa, colocar, rebolar em cima deles, que estavam pelados, até quase encostar, mas ela não chegou a tocá-los na quase uma hora que ficou ali. Pra terminar, a puta os masturbou ao mesmo tempo; ganhou duzentos reais pelo trabalho e deve ter saído satisfeita.
Bem, isso me fez pensar que o primeiro andar estava tomado pela perversão. Já no terceiro andar, a coisa parecia mais família; um casal transando, no batido papai-e-mamãe. Apesar da posição básica, os dois pareciam estar aproveitando bastante, pois no momento do gozo, parecia que a cama iria desabar. Mas, quem sabe fosse a primeira vez de um casal de namorados? Normalmente, os casais começam com esta posição. Eu disse normalmente.
Já no apartamento logo acima do meu, o negócio era mais selvagem. O casal não conseguiu acabar o jantar, e jantaram-se ali na mesa mesmo. Foi até bonito de ver. Ele a jogou de costas, com os peitos enormes dela contra a tábua fria da mesa, enquanto penetrava-a por trás. Ela, com uma das mãos que estava livre, puxava-o pela bunda, como que forçando para que ele entrasse com mais e mais força. E assim ele foi fazendo, até que a mesa parecia também ceder, e os dois urraram no gozo, antes que tudo que estava em cima de mesa, caísse. Em seguida deitaram nus e extasiados no tapete da sala, sem se desgrudar, ela deitada de costas por cima dele.
E no último, ficou mais interessante ainda. Pude acompanhar atentamente uma sessão caseira de pornografia. Os dois se revezavam nas fotos; trocavam de roupas, ela o chupava, ele a chupava, ele enfiava em todos os buracos possíveis dela, e ela lambia toda a extensão do corpo dele. E foi com a sessão de fotos que encerrei aquela noite, pois eles foram até perto da meia-noite assim. Como eram muitos fotos, ela ficava fazendo oral nele, enquanto baixavam as fotos pro computador. Numa dessas, ele não agüentou e gozou. Ele até ficou um pouco cabreiro, pois queria ter fotografado aquele momento, mas ela desculpou-se dizendo que daria tudo de si para fazê-lo gozar logo novamente; e voltaram para mais fotos. Tudo acabou num gozo gigante que, eu acho, fez o prédio tremer. Do jeito que estavam, adormeceram no sofá da sala. E eu, desliguei meus monitores, mas, é claro, deixei tudo gravado, como sempre. Adoro sábados!
Novos Tempos Maudernos
- Rafaeeeeela. Cadê meu chá de boldo transgênico?
- Ainda não tá pronto? Que que você estava fazendo? Ônibus? Como assim ônibus? Quem mais anda de ônibus?
- Ai, faz assim. Chama o Edu.
- Não tá? Ônibus também? Trânsito aéreo? Com meu helicóptero?
- Fazer o quê né?
- Que foi Renatinho, meu querido? Não, de jeito nenhum. Duas horas para comprar pão é muito. Em uma hora e meia quero você em casa. Você sabe como anda a violência aqui no condomínio.
- Tá, leva celular.
- Alô! Sim, eu gostaria de falar com o Roger. Ah, não tá.
- Ele volta?
- Só se pagarem o resgate?
- Faz quanto tempo?
- Sei. Sei. Ah, então daqui uns quinze dias ele deve estar de volta?
- Não sabe?
- Ah, e o Felipe?
- Preso?
- Por andar com a coleção primavera-verão no outono?
- Entendo, muito justo. Mas quem você recomenda?
- Eu não posso ficar nem mais dois dias sem fazer cabelo e mão. Quanto mais quinze.
- Cláudio? Tem pós? Não? É daqueles prodígios? Pfff, esquece.
- Bem, faz assim. Só quero uma hidratação com água mineral nos cabelos. Às quinze horas? Tá bem. Obrigada.
- Alô? Maria Eduarda, Paola Régia, tudo bom? Tudo amor.
- Nada de mais. Só para dizer que estou cercada de incompetentes. Sim, eu sei que você me entende. Por isso liguei para você, né amiga.
- Hoje? Ah, sim estou sabendo. Não sei se vou. Ainda não chegou meu vestido. Não sei. Era para ter chegado ontem.
- É, deve, tudo está preso no trânsito. Só falta o vestido vir de ônibus. Ônibus? É aquele automóvel grande, quadradão, que vai cheio de pessoas. Isso, querida, esse mesmo.
- Tá. Qualquer coisa liga no meu celular. Não, seu número está no meu décimo quarto aparelho. Lógico que não adianta ligar em outro. Não atendo número desconhecido. Outra ligação no aparelho sete amor. Pode deixar que ligo sim. Beijo, tchau.
- Alô. Renatinho, o que você não está fazendo em casa. Já saiu faz duas horas. Sim, eu sei o caminho, duas esquinas até a padaria. Uma hora e meia é o tempo padrão fora da hora do rush. Aqui em casa em dez minutos ou só vai fazer duas viagens para a Europa esse ano.
- Rafeeeeeela. E meu chá?
- Finalmente. Que que foi Rafaela? Porque que você está chorando? Na minha frente não, por favor. Que humilhante.
Amanhã
“Certo. Agora abra as pernas. Assim. Que delícia! Rebola, rebola, gostosa! Tira a tua calcinha, por favor, tira! Quero ver esse teu rabinho gostoso rebolando pra mim. Vai. Muito bem! Que delícia esse cuzinho. Quero ele todo para mim. Vai, continua rebolando. Tira a parte de cima agora. Mostra teus peitões para mim. Molha o dedinho e passa nos bicos. Isso, bem sexy. Agora enfie este dedinho molhado…”.
“Olha, acho que minha mãe chegou. Vou ter que desligar. Amanhã a gente se fala aqui no Messenger, e, quem sabe, eu ligo a câmera de novo. Beijos. Fui.”
Os Peitos de Madona
Os peitos de Madonna na minha cara. Meia-noite em ponto, o relógio está tocando. Ela aperta eles com suas mãos de rainha-dominadora. Eu quase choro de emoção. Minha calça está no chão e sua boca desce pela minha barriga, deixando o rastro de sua saliva. Ouço passos na escada. Uma calcinha passa pela minha cabeça, jogada de algum lugar que não consigo olhar, pois os lábios carnudos de Madonna chegaram ao meu pau e eu não consigo parar de olhar a cena. Mas, o som de cascos movem-me para ver um Sátiro atravessando a sala, atrás de um Ninfa de cabelos vermelhos e compridos e nua. Madonna já desaparecera com meu pau na sua boca. O Sátiro e a Ninfa desapareceram também. Ouço o arfar de Madonna, ou seria o meu? Ouço os gritos da Ninfa, sendo possuída pelo tarado Sátiro num outro cômodo. O campo floresce como se a primavera chegasse de uma só vez. Uma porta aberta leva ao nada, ao branco infinito em sua mistura de todas as cores. No campo, deitada, havia uma mulher, vestida apenas com um pijaminha curto; short e uma camiseta. Da porta saem carneiros brancos, perseguidos por um trio de porcos vestidos como homens e armados com suas facas. A mulher deitada no chão vira-se de lado e começa a chupar seu polegar. Os porcos somente pegam um carneirinho, e agora brigam entre si, enquanto o sangue jorra do animal. Meu pau volta a ficar duro com a cena da moça chupando dedo, e ela faz isso do modo mais sacana possível. Os porcos, após desistirem de brigar, arrastam o carneiro estraçalhado; cada um com seu pedaço. A moça desapareceu. Olho para a porta, e vejo um lobo andando sob duas patas, entrando na porta que leva a lugar algum, logo após os porquinhos. Atrás de mim, uma sala com apenas uma televisão no centro que mostra eu olhando para uma TV no centro de uma sala vazia; caminho na sua direção, enquanto o meu eu dentro do tubo de imagem faz o mesmo; ao mesmo tempo, nós dois a desligamos. Era hora de acordar.
Segundo Palco
O ambiente era bem mais escuro que os bares normais. O som, bem mais denso. A bebida, bem mais forte. Apesar da descrição soturna a atmosfera era de uma calma inspiradora. Todas aquelas mesas de mogno antigo, pesadas e num tom além do café, quase negro. As paredes propositalmente mal-acabadas e sem lixar, eram os encostos ideais a serem aproveitados com muita calma, se recostando centímetro a centímetro, caso contrário você levaria uma farpa de presente para casa. O assoalho só tinha sinteco na região da lamparina, onde ficavam baixo, piano, uma bateria de sete peças e um clarinete.
O som que aquele grupo tocava não era jazz, não era blues, não era rock. Um som regional, world music, definitivamente seria muito vago para definir as melodias que me encantaram naquele momento. Mas talvez eu não tenha achado a melhor definição daquele cancioneiro pós-moderno porque algo, me chamava ainda mais atenção.
Dois minutos antes uma garota, cabelos ondulados na altura das costas, uma camisa branca semi-transparente, revelando só o necessário, e um rosto exótico na medida certa, me pediu o isqueiro. Sacudi a caixa de fósforo, indicando que isqueiros usavam fluido e que quando perdidos na rua, acabavam inalados por animais indefesos ou em bueiros, direcionando imediatamente seu poder de fogo destrutivo para as caixas d’água da cidade. Mesmo com dúvidas se ela tinha compreendido todo o significado da sacudidela, ela aceitou a caixinha e acendeu seu cigarro com uma delicadeza descomunal. Não lembro até hoje, de um filme sequer, e garanto a vocês, vi muitos e minha memória é excelente, em que um cigarro foi acendido com tamanha elegância e charme.
Acompanhando a bela moça estava um rapaz. Quase mais bonito que ela, ele era negro, de olhos bem profundos e cabelos na altura dos ombros, devidamente trançados. Seu terno formava um belo composé, com sua calça ocre, mas só seu sorriso seria o suficiente para fazer qualquer garota no raio de um par de quilômetros se apaixonar. Esse casal conseguiu atrair mais minha atenção do que o som.
Ainda hoje não sei se fiz uma bela troca, afinal não é sempre que temos o prazer de ver um grupo paraguaio tocando uma música indecifrável, sem negar e sem aceitar as raízes guaranis, sem aceitar as influências máximas da música contemporânea, mas fazendo do todo algo próximo delas, todavia diferente ao ponto de você não conseguir classificar se é melhor ou pior, ou mesmo o que é; só sei que troquei tudo isso pela exercício da observação do casal.
Falando assim parece que fiquei como louco, seguindo o amasio com binóculos, lunetas e cachimbo na boca, mas já adianto que não. Na verdade, acredito que foi um sublime momento de sorte. Todo o embróglio se deu em menos de cinco minutos. A garota estendeu seu braço e sua mão e pegou o isqueiro, acendeu o cigarro com a já citada pompa, mas sem ser esnobe, devolveu o isqueiro e abraçou o rapaz com um dos braços. Eles trocaram alguns poucos, mas belos beijos, e ficaram prestando demasiada atenção aos acordes robustos que saiam do piano e do baixo. As luzes estavam todas direcionadas para o que seria o palco, mas não para mim. No meu imaginário, eu me escondia como um roadie que vai trocar o instrumento do músico e não pode ser visto pela legião de fãs, que pagou uma fortuna para ver o show da banda favorita e não um sortudo que trabalha com eles sabe-se lá porque. Definitivamente eu estava ao lado do melhor palco da noite.
A luz que refletia deles era realmente forte. O mesmo momento de piscar os olhos, o mesmo tipo de pele sedosa e o mesmo jeito de tragar o cigarro. Tudo em harmonia, ele na mais perfeita versão carregada de melanina, que nem a exposição ao sol mais forte o faria fraquejar, e ela da mais alva pele, com os contornos mais suaves, que até a neve teria vergonha de achar-se branca. De repente o auge da noite aconteceu, o solo dos dois amantes. O rapaz, em um movimento sutil se levantou e gentilmente disse que iria pegar uma bebida. Ela olhou para ele e respondeu que já não via a hora dele voltar. E com todo direito de tréplica que um debate oferece, ele respondeu com um sorriso que a fez apoiar o queixo nas costas de uma das mãos, enquanto repousava o cotovelo à mesa.
Não sei, e mesmo uma mulher não seria louca de interromper aquele momento,em que o nosso galã virou de costas, direção ao balcão, e o olhar da garota ficou vago, acompanhando cada passada como se a cada uma delas ele ficasse um continente mais longe. Impossível saber o que se passava naquela cabeça naquele momento, mas uma coisa já eu já conseguia dizer. Ela estava completamente apaixonada. E aposto que eles tinham se conhecido há apenas três dias.
Veronika
O som familiar da colher raspando o prato que ouvia agora da cozinha ao lado, lembrou-lhe o pai ao ralhar com ela ao fazer o mesmo som. Seu pai morrera na Segunda Guerra. Depois daquilo, seu mundo mudou completamente; ele se abriu a novas propostas, a viagens, ao conhecimento de tudo aquilo que precisou para suprir sua vida de aventuras. Mas, agora, estava ali, numa casa comum, com um marido comum que tomava canja e arrastava a colher no prato de porcelana, último exemplar restante dos presentes de casamento, oito anos atrás. E assim eles se revezavam no almoço e jantar; cada um comia, lava seu prato, e depois o outro comia. Isto, visivelmente, ajudava a diminuir o trabalho na hora de limpar a cozinha. Mas este assunto afligia Veronika naquele momento. Mentira, pensava, isso estava corroendo-a desde o dia do seu casamento. Agora a certeza clareava tudo: Leon destruiu sua vida, quando a conheceu. Não, ela mesma se destruiu, quando aceitou o pedido de casamento. Era necessário, naquela altura da vida, sair de seu “roteiro rumo ao inferno”, como ela chamava seu cotidiano; acordar com um homem diferente a cada dia, sair à tarde quase sem destino, terminar a noite num bar numa cidade também diferente e adormecer nos braços de um outro estranho para, no outro dia, começar tudo novamente.
Leon apareceu do nada e a tomou da vida; Veronika, com então 25 anos, entregou-se, pois achava que era o momento de mudar o rumo. Entretanto, a direção tomada não foi o que ela esperava. No começo, acostumou-se, entretanto, o costume virou monotonia, e a monotonia acabou resultando na agonia em que se encontrava agora. Veronika queria se matar, mas a vida era por demais cativante para que ela cometesse suicídio. Poderia matar Leon, mas nem ele merecia isso. Merecia coisa pior, por deixá-la minguar. Tinha 32 anos, e apesar de ser muito bela, ele a desprezava; porém, como todas as outras coisas, Veronika se acostumou. Só que o dia da desforra chegara finalmente; lembrou do vizinho, 22 anos e que vivia olhando com olhos esfomeados para Veronika. Aliás, pensou, foram estes olhos que a manteve viva nestes últimos dois anos; e eram estes olhos que saciariam a fome recíproca deles.
Decidida, passou por Leon, que repetia o prato de canja e nem levantou os olhos para ela; caminhou até a casa do vizinho, e o chamou. Perguntou se estava sozinho, e ele, desconfiado, disse que sim. Entrou sem nem falar mais nada e ali na porta mesma, agarrou o rapaz. Ele tentou se livrar, sem muito esforço, do beijo de Veronika, mas, logo cedia às mãos femininas e delicadas, que retiravam as roupas de ambos. E, ali em pé na porta, de costas para o vizinho, deixou ser possuída por ele. Quando terminaram o ato, ela olhou para a porta de sua casa que ainda estava aberta. Leon, era possível escutar, ainda raspava o prato de canja. Ele devia ter ouvido os gemidos dela e do vizinho, mas, ao que parece, ou viu e não ligou, ou nem se levantou da cadeira. Bem, pra Veronika, não importava; foi para casa, pediu o divórcio, saiu naquela noite de casa, e nunca mais foi vista.
